Educação Física e Esporte na Educação Escolar Básica: a diferença ignorada


José Guilmar Mariz de Oliveira e Laércio de Moura Jorge



   Sim, Esporte e Educação Física são manifestações, instituições e práticas distintas. A frase “O que quer que seja Educação Física, Esporte é que não é”, enfaticamente escrita e dita, tem causado, invariavelmente, perplexidade a leitores e ouvintes orientados por uma compreensão baseada no senso comum. De um modo geral e também na comunidade escolar, incluindo alunas, alunos, mães, pais, professoras, professores e dirigentes educacionais, essa diferença tem sido (1) ignorada no sentido do real desconhecimento da diferença e (2) também ignorada, de forma premeditada, no sentido de desprezo ou desinteresse em relação à problemática, procurando manter-se o “status quo” da confusão estabelecida para auferir-se vantagens da não diferenciação, pois a sustentação de uma proposta educacional / pedagógica séria e coerente, que necessariamente deve considerar tal diferenciação, implica mudanças conceitual e estrutural nem sempre convenientes para projetos “educacionais” oportunistas, improvisados e mercantilistas.

Inicialmente, torna-se necessário enfatizar que, nós do Colégio Renovação e do Instituto de Cinesiologia Humana de São Paulo, entendemos e adotamos a distinção entre Educação Física e Esporte. A Educação Física, cuja denominação substituímos por Cinesiologia Humana, é um componente curricular obrigatório da Educação Escolar Básica. Nas aulas de Cinesiologia Humana (Educação Física) nossos alunos não praticam Esporte. Nas aulas de Cinesiologia Humana (Educação Física) nossos alunos ESTUDAM, teórica e praticamente, o MOVER-SE, considerado como uma das características essenciais do ser humano.

Entendemos também que o Esporte representa uma manifestação e uma instituição de inegável impacto junto à sociedade de um modo geral, razão pela qual acreditamos que a Escola não pode omitir-se em relação aos assuntos pertinentes ao Esporte. O mover-se é, salvo raras exceções, também uma característica predominante do desempenho de atletas, envolvidos na competição esportiva propriamente dita. Por isso, em algumas aulas do componente curricular Cinesiologia Humana (Educação Física), o mover-se do atleta, nas várias modalidades esportivas, é também, oportunamente, apresentado, discutido, analisado, estudado e vivenciado. Isto não significa que nossos alunos estejam praticando Esporte. Ao tratarmos de assuntos relacionados com o Esporte no âmbito do ambiente escolar, consideramos, no mínimo, dois níveis distintos de ação.

Num primeiro nível, cumpre-nos observar a característica peculiar da instituição Escola no contexto da Educação Escolar Básica. Assim, não procuramos vender a imagem da Escola por meio de equivocados apegos e apelos mercantilistas, oferecendo (“gratuitamente” ou não) às alunas / aos alunos, “aulas ou escolinhas de esporte”. Ao considerarmos o contexto da organização social brasileira, passado e presente, essa falsa e ilusória pretensão pedagógica não condiz com a essencialidade e prioridade das funções específicas da Educação Escolar Básica, cujas finalidades nobres não podem ser confundidas com àquelas pretendidas com o 2 oferecimento de atividades frívolas e atrativas, planejadas, também, unicamente com o objetivo de servirem como chamarizes para a matrícula de mais e mais alunos. Convém ressaltar que Esporte NÃO é um componente curricular obrigatório da Educação Escolar Básica, isto é, não existem aulas de Esporte. Existem sim aulas de Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, História, Geografia, Cinesiologia Humana (Educação Física) e Arte (Educação Artística), entre outros.

No entanto, o tema Esporte, envolvendo necessariamente a participação de atletas e também conseqüentemente outros constitutivos como torcedores, rádio, jornal, televisão, internet, indústria e comércio de material esportivo, marketing esportivo, dirigentes esportivos, clubes esportivos, etc., pode ser desenvolvido em outros componentes curriculares como por exemplo Ciências (Biologia, Química, Física), História, Geografia, Arte, Ciências Sociais e Matemática. Ainda nesse nível de consideração, o Esporte é também entendido como um tema transversal na mesma condição e categoria de outros temas transversais que abrangem Ética, Saúde, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual. Obviamente, nessas situações, é inimaginável e inconcebível depreender-se que nossas alunas / nossos alunos estejam praticando Esporte.

Num segundo nível de ação, como uma aluna / um aluno pode então praticar Esporte no Colégio Renovação? Sem entrar no mérito da questão “O que é praticar Esporte?”, cuja discussão fica para uma próxima oportunidade, nossas alunas / nossos alunos podem participar das seguintes atividades pertinentes, entendidas como extracurriculares:
 “Cursos de Aprendizagem Esportiva” em várias modalidades tais como Futebol de Salão, Futebol “Society”, Ginástica Acrobática, e Voleibol;
 “Jogos Internos”, realizados a cada dois anos, incluindo competições inter-classes por meio de jogos com tipificação esportiva; e
 “Equipes de Representação Esportiva” em competições entre Escolas, em várias modalidades tais como Futebol de Salão, Futebol “Society”, e Voleibol.
Essas atividades extracurriculares, representando projetos da Associação Cultural Educacional Renovação, são planejadas e desenvolvidas sob a responsabilidade e coordenação da unidade cultural educacional “Esporte” e contam com a orientação específica da unidade cultural educacional “Instituto de Cinesiologia Humana de São Paulo”. Os objetivos e pertinência dessas atividades, histórica e tradicionalmente declarados sem muito rigor em relação à consistência e à coerência de argumentos, são constantemente analisados no âmbito da comunidade escolar, no sentido de situar as características e particularidades do Esporte, suas implicações e conseqüências no contexto da sociedade contemporânea.
Referência: Mover-se (Boletim Oficial do Instituto de Cinesiologia Humana de São Paulo), Ano III, Número 1, Janeiro/Junho 2005, página 1.