Cinesiologia Humana e a Organização Curricular
da Educação Física na Educação Escolar Básica

José Guilmar Mariz de Oliveira


Coordenador Geral do Instituto de Cinesiologia Humana de São Paulo (ICHSP)



Elaborei esta palestra no sentido de oferecer um convite e oportunidade correspondente para o pensar, o refletir, o argumentar, o analisar, o filosofar, e o agir em relação às diversas considerações apresentadas, pertinentes ao componente curricular “Educação Física” na Educação Escolar Básica. Espero assim poder contribuir para a consolidação de posicionamentos e de práticas já instaladas e também para a promoção de mudanças referentes ao entendimento e conseqüente desenvolvimento desse componente curricular, ressaltando em sua organização, aspectos de seus saberes e práticas específicos.

Em relação à promoção de mudanças estarei apresentando justificativas, fundamentos e esclarecimentos sobre o processo de organização desse componente curricular, numa transição da Educação Física à Cinesiologia Humana. Perguntas pertinentes estarão sendo formuladas por meio de, algumas vezes, tons impertinentes e incomodantes. Necessariamente espero poder oferecer respostas explícitas e convincentes. No desenvolvimento de idéias e posicionamentos estarei utilizando uma abordagem lógica com características mais racionais, adotando a generalização, mas não descartando a consideração do lado emocional das exceções. Deliberadamente não estarei com a idéia fixa em autores, modismos ou rótulos. Entendo também não haver necessidade de um posicionamento maniqueísta, ao querer decidir sobre o que é certo ou o que é errado, da mesma forma que as idéias e posições apresentadas não refletem um reducionismo, nem tampouco um holismo, na medida em que considero os dois como constituintes essenciais de um mesmo conjunto. De forma simples, mas não simplista, e sentindo a necessidade de valer-me do óbvio e sem ser ingênuo, busco o fortalecimento de posições convergentes e procuro, quando de possível sinalização de divergência, ter certeza de que tento evitar mal entendidos por meio de esclarecimentos cuidadosamente elaborados. Mesmo que a minha e as suas autonomias para qualquer mudança, se assim definido, sejam relativas a curto prazo, a ação individual de cada um de nós, envolvidos no processo, pode estar acontecendo em qualquer nível, e com a intensidade com que cada um se dispuser e for possível fazer acontecer.

Uma pergunta inicial que faço é: Como a Educação Física tem sido entendida e interpretada, pela sociedade em geral, no contexto da Educação Escolar Básica? A resposta a essa pergunta será fundamental para inferências e definições futuras. O foco aqui apresentado não será histórico, mas sim factual-contemporâneo, e por vezes interpretativo, e com base, quando pertinente, em situações a partir da legislação que estabelece as diretrizes e bases da educacional nacional, sancionada em 1996 e suas alterações subsequentes.

Do ponto de vista curricular, a Educação Física é incluída na base nacional comum para o Ensino Fundamental e para o Ensino Médio, juntamente com o estudo da Língua Portuguesa, o estudo da Matemática, o conhecimento do mundo físico, o conhecimento do mundo natural, o conhecimento da realidade social e política, especialmente do Brasil, e ensino da Arte. Inclui também a Música, como não exclusividade do ensino da Arte, e o ensino de uma Língua Estrangeira Moderna.

No Ensino Médio essa base nacional, é organizada em áreas de conhecimento, a saber: Linguagem, Códigos e suas Tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Merece consideração uma possível evidência de demonstração de indefinição de especificidade, dificuldade de caracterização, ou particularidade quanto ao entendimento da Educação Física, ao não ser incluída no conjunto das áreas do conhecimento acima mencionadas, conforme pode ser verificado na Resolução CNE/CEB no. 03, de 26 de junho de 1998; assim entendeu-se que as propostas pedagógicas das Escolas deveriam assegurar um tratamento interdisciplinar e contextualizado para a Educação Física, assim como para a Arte, considerados como componentes curriculares obrigatórios. Posteriormente, com a publicação das Orientações Curriculares para o Ensino Médio (MEC, 2006) a Educação Física foi incluída na área de conhecimento Linguagem, Códigos e suas tecnologias; não encontrei justificativa ou critério classificatório plausíveis para tal inclusão.

Na formulação de uma base nacional comum para o ensino fundamental e médio, a Educação Física foi inicialmente incluída já de alguma forma diferenciada, em parágrafo legislatório distinto dos demais componentes. A seguir, acompanhada por aconselhamentos e resoluções institucionais e por um movimento lobista corporativamente articulado, a redação da legislação foi modificada e a Educação Física passou a ser explicitamente um componente curricular “obrigatório”, conforme a Lei 10.328 de 2001, tendo garantida assim, mesmo que dependente de normalizações, a sua presença nos currículos de todos os níveis ou de todas as etapas da Educação Escolar Básica.

Sobre esse caráter obrigatório, é importante ressaltar que o entendimento da Educação Infantil, encontrado no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998), no âmbito das experiências e dos componentes curriculares, representados por eixos de trabalho orientados para a construção das diferentes linguagens e para as relações com os objetos de conhecimento, na área Conhecimento de Mundo, não encontrei, textualmente, referência explícita à Educação Física. No entanto, entendido como um dos “componentes curriculares” (eixos de trabalhos) da Educação Infantil é incluído o “Movimento” e literalmente, em toda sua apresentação, conceituação e caracterização, nenhuma referência é feita à Educação Física. Por que não Educação Física? Por que Movimento? Inicialmente pode-se especular pelo avanço no entendimento da inadequação do termo Educação Física, embora somente por parte de legisladores e autoridades educacionais. (responsáveis pela elaboração de tais referenciais). No entanto, tal entendimento de inadequação não foi observado no ensino fundamental e no ensino médio e foi mantido o termo Educação Física e não Movimento.

Conjeturo ainda que, no âmbito da Educação Infantil, o entendimento da Educação Física tido por legisladores e autoridades educacionais sobre essa etapa da Educação Escolar Básica, não é compatível e nem aplicável às crianças com idades entre 0 e 5 anos. Assim entendeu-se necessário substituir-se Educação Física por Movimento, caracterizado talvez por um disfarce elaborado por adeptos da Psicomotricidade. Mesmo com o passar do tempo e com o advento da “obrigatoriedade” por lei, a Educação Física não aparece textualmente nos documentos referenciais nacionais sobre a Educação Infantil; não temos conhecimento de qualquer contestação da parte presumidamente ou supostamente prejudicada. Podemos inferir, no sentido de um contra-argumento, que a coletividade da Educação Física aceitou sua substituição nominal por Movimento e não sentiu-se prejudicada, reconhecendo como justificativas, talvez, a falta de preparo profissional e conseqüente conhecimento necessário ou tradição com relação à atuação de docentes na Educação Infantil, advindos de Cursos de Licenciatura em Educação Física. A utilização da expressão MOVIMENTO em substituição à EDUCAÇÃO FÍSICA, para nomear um eixo de trabalho num campo de experiência (Conhecimento de Mundo), especificamente na Educação Escolar para crianças entre 0 e 5 anos de idade, tem sido justificada em razão da limitação do tradicional entendimento da Educação Física em relação ao fazer pedagógico em torno dos movimentos da criança, o qual dá ênfase apenas a uma “educação do físico” e não a uma educação que envolve um conjunto de conhecimentos mais amplo sobre o movimentar-se do ser humano, abrangendo seus aspectos filogenéticos e ontogenéticos.

Assim posso compreender a utilização da palavra Movimento em substituição à Educação Física como uma ajuda para um melhor entendimento desse componente curricular no âmbito específico da Educação Escolar envolvendo crianças até 5 anos de idade, desde que o conceito de movimento seja entendido como um elemento voltado para a consecução dos objetivos da escolarização. Espera-se que o “movimentar-se” seja entendido como elemento também essencial para o desenvolvimento das crianças nessa etapa escolar, contribuindo para aprendizagens compatíveis e conhecimentos correspondentes, incluindo a compreensão, a expressão e a comunicação relacionadas com os significados presentes do “movimentar-se” no contexto cultural (sócio-cultural, psico-cultural, e bio-cultural) em que elas se encontram.

Ressalto no entanto que mesmo utilizando Movimento como “componente curricular” para esse nível de escolarização, a comunidade corporativista da Educação Física tem insistentemente exigido a figura do Licenciado em Educação Física para a execução dessa tarefa docente. Documentos legais existem para dar tal respaldo, elaborados sem o devido rigor e responsabilidade, ignorando e conflitando com outros documentos legais e recomendações consultivas.

Com relação à definição do objetivo geral do componente curricular Educação Física entendo-o, às vezes, considerado demasiadamente ambíguo e inconsistente. Perde-se entre aspectos de elaboração sem o devido rigor da palavra e a confusão com os objetivos da educação escolar como um todo. Os conteúdos propostos para o desenvolvimento das aulas também refletem considerável desencontro entre os conceitos de conteúdo e de atividade e em determinado momento, a forte tendência de transformação do currículo escolar na área da Educação Física, em meros programas de iniciação esportiva.

Um outro entendimento do componente curricular Educação Física na Educação Escolar Básica relaciona-se com o fato de já ter sido facultativo nos cursos noturnos. Interessante notar que deliberações de autoridades educacionais orientaram no sentido de que a Escola pode ou não oferecer o componente curricular Educação Física e, ainda que o faça, à aluno e ao aluno será facultado optar por não freqüentar tal atividade; a Escola, ainda que optar por incluir a Educação Física nos cursos noturnos, não poderá contabilizá-la nas horas exigidas para o desenvolvimento do currículo correspondente.

Documentos mais recentes, especificamente a Lei 10.793, ainda com relação ao conceito de prática facultativa de um componente curricular, já não mais explicita o teor facultativo da Educação Física em cursos noturnos. Porém causa estranheza, e ao mesmo tempo possibilita um entendimento diferenciado desse componente curricular, ao facultar sua prática à aluna / ao aluno: (a) que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas, (b) maior de trinta anos de idade, (c) que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação militar, estiver obrigado à prática da educação física, e (d) que tenha prole. Cabe também destacar que a utilização de termos como “freqüentar atividades” ou “da prática” de outros componentes curriculares não é um comum no tratamento legal e nem mesmo no tratamento coloquial da Educação Escolar Básica.

Ainda por deliberação de autoridades de aconselhamento para os canais normativos e executivos, a Educação Física não deve levar à retenção, com a justificativa de que, no ano seguinte, a aluna / o aluno estaria, de qualquer forma, na obrigação de freqüentá-la com os mesmos colegas ou, por reclassificação, seria incluído em turma mais ajustada à sua faixa etária e desenvolvimento físico, e com a preocupação de não impor pena pedagogicamente inadequada à aluna / ao aluno. Difícil imaginar que algum componente curricular possa, numa instituição de caráter supostamente educacional, impor pena pedagogicamente inadequada à aluna / ao aluno.

Muitos assim imaginam, pois realmente pensam que numa aula de Educação Física necessariamente, por exemplo, um aluno de 6 anos de idade estaria em desvantagem, e consequentemente pedagogicamente estaria sendo punido, ao ter de jogar ou futebol, ou basquetebol, ou handebol contra alunos de 7 anos de idade. Independentemente do conceito de retenção, não notamos qualquer preocupação de tal natureza explícita com a aprendizagem de outros componentes curriculares baseada no critério relacionado com o desenvolvimento físico da aluna e do aluno. De fato, já constituímos classes, e ainda estamos pensando novamente em constituir, somente com alunos, ou somente com alunas, no sentido de evitar-se o desequilíbrio face ao desenvolvimento físico diferenciado entre mulheres e homens, quando da “prática” da Educação Física na Educação Escolar Básica.

Com relação ainda à organização curricular no período noturno, novamente ressaltando uma característica diferenciada e um tratamento isolado, recomenda-se que nos anos / séries finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, a Educação seja ministrada, preferencialmente aos sábados. Dá-se margem ao entendimento da “prática pela prática”, e da não contextualização da Educação Física no âmbito da Educação Escolar Básica.

Uma tendência mais atual tem indicado de uma maneira, acredito que conveniente, mas também transformada em medida legal, embora não consensual no âmbito da Educação Escolar em geral, a exclusividade da atuação do Licenciado em Educação Física para ministrar as aulas desse componente curricular em todos os níveis de escolarização. De forma extremamente corporativa criou-se uma situação inusitada perante à própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional atual e a parecer conflitante ao Conselho Nacional de Educação. Tal exclusividade, motivo de júbilo para entidades de representação da classe profissional específica, tem proporcionado denuncia e preocupação de representações mais amplas da classe profissional da Educação Escolar com a garantia de direitos legais, principalmente por ocasião de inscrições para concursos públicos para professores na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental.

Uma outra forma de entender a consideração da Educação Física por parte de uma parte da sociedade mais específica mostrou-se para mim, preocupante. Durante os últimos 15 anos de atuação como professor do Curso de Graduação em Educação Física na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, isto é entre 1985 e 2000, coletei sistematicamente dados interessantes sobre o conceito do componente curricular Educação Física. Nos primeiros contatos com alunas e alunos ingressantes no Curso, e como parte integrante do programa da Disciplina “Introdução à Educação Física”, os mesmos foram solicitados a discorrer, individualmente e por escrito, sobre as suas aulas de Educação Física na Educação Escolar Básica. Analisando continuadamente os seus depoimentos e considerando de forma cumulativa os últimos dados analisados, verifiquei que o relato de aproximadamente 89% dessas alunas e alunos demonstrou uma atitude relacionada com sentimentos de desaprovação, descontentamento, perda de tempo, desinteresse, desmotivação, repetição de conteúdo, entre outros, sobre suas aulas de Educação Física. Lembrando-me de uma crônica “Reflexões de um Professor Aposentado”, dei-me conta de ter sido professor de muitos das professoras e dos professores daquelas alunas e daqueles alunos. Uma diminuição do meu sentimento de culpa foi possível ao justificar que passávamos e ainda estamos passando por uma fase de transição, e que algum esforço foi envidado na tentativa de reverter aquela situação apresentada.

De forma também inusitada, perante aos demais componentes curriculares, considerou-se a “terceirização” das aulas de Educação Física em “Academias de Ginástica” para gáudio de muitos alunos e parentes maravilhados com a disponibilidade de instalações e de aparelhos específicos. Entre outras considerações por parte da sociedade em geral, lembro-me de várias situações relacionadas com o preconceito da “menor importância” da Educação Física e de seus profissionais.

Em razão do até aqui exposto e face à pergunta “Como queremos que esse componente curricular seja considerado?” e tendo que posicionar-me entre “Continuar como está...” e “Promover alterações substanciais...”, com certeza fico com esta segunda opção. Assim irei delinear os pressupostos e fundamentos de uma organização curricular mais atenta à consecução dos objetivos da Educação Escolar.

Ao situar a Educação Escolar num contexto universal, considero o universo propriamente dito, constituído principalmente por galáxias, estrelas, planetas e luas. Ao destacar o planeta Terra, entre as “coisas” vivas e não vivas (mineral, vegetal, animal...) e entre os animais encontramo-nos na figura do “homo sapiens” com características bem distintas. Cada um de nós constitui um “corpo” composto pelos mesmos elementos “biológicos” (células, tecidos, órgãos, aparelhos e sistemas). Convém ressaltar que, em princípio, tal fato, por si só, não permite inferir que o “corpo humano” seja entendido exclusivamente como biológico. Para o momento, admite-se a conceituação de “corpo”, devidamente considerada, revisada e ampliada.

Entre os sistemas constituintes do corpo humano destaco, para a continuidade da apresentação, o sistema nervoso cuja evolução comparada com outros indivíduos da espécie animal representa uma característica primaz. A inteligência, numa combinação e interação relacional com linguagem, memória, pensamento lógico, pensamento abstrato, criatividade, percepção, raciocínio, resolução de problemas, previsões, decisões, emoção e afetividade, aprendizagem, e conhecimento, permitiu que a evolução humana, além de “biológica”, fosse também considerada como “cultural”. A compreensão da palavra falada e da leitura e do entrosamento da compreensão com a expressão e o reconhecimento de diferenças e semelhanças entre populações distintas possibilitam a interação de elementos principalmente da “biologia”, “antropologia”, “psicologia” e “sociologia”, na relação com a cultura.

Entre as várias instituições culturais encontram-se instituições de ensino e pesquisa associadas, de forma invariável, aos conceitos de aprendizagem e educação. Da relação entre esses dois conceitos é importante ressaltar que “Aprendizagem não implica necessariamente educação” e que “Educação implica necessariamente aprendizagem”, e ainda considerar aspectos distintos como maturação, autoaprendizagem, treinamento, e doutrinação.

Ao discorrer sobre educação entendo necessária a distinção entre um processo acontecendo de maneira informal e assistemática e outro processo acontecendo de maneira formal e sistemática, num contexto “não escolar” ou num contexto “escolar”. Quase que invariável e inevitavelmente, relaciona-se a instituição Escola com o conceito de Educação Escolar que, como dever estatal, deve assegurar à aluna / ao aluno conhecimentos necessários para, em tempo real e ao longo da vida, desenvolver-se individual e socialmente, cumprir suas obrigações e exigir a observância de seus direitos no exercício da cidadania e demonstrar competência em situações de trabalho e de continuidade de estudos em níveis escolares posteriores.

Nesse contexto escolar a instituição Escola se destaca, como um importante elemento da cultura. Considerando-se um sentido mais estrito do conceito de Educação Escolar, entendo também ser característico, essencial e um comum cultural, o ensino de coisas específicas que crianças e adolescentes aprendem na Escola. Um exemplo atual atesta a relação entre a escola e um derivativo igualmente valorizado, o estudar, quando uma criança com a idade de 3 anos ao verbalizar algo como que “antes de ir na festa, ela precisa estudar...” e perguntado imediatamente “o que é estudar”, responde que é “ir na Escola”.

Assim, encontra-se a Educação Escolar Básica, apresentando níveis e modalidades distintos, abrangendo crianças e adolescentes em torno de uma organização curricular e com objetivos específicos. Normalizações, justificadas, estruturadas e atualizadas em relação às condições e exigências sociais contemporâneas, segmentam a Educação Escolar Básica em modalidades e etapas definidas de forma geral e balizadora, em conformidade com faixas etárias de alunas/alunos. Sem nos ater à denominações classificatórias, nem sempre coerentes e lógicas, a atual legislação brasileira apresenta etapas incluindo alunas/alunos com (a) até 3 anos de idade, (b) 4 e 5 anos de idade, (c) idades entre 6 e10 anos, (d) idades entre 11 e 14 anos, e (e) idades entre 15 e 17 anos.

Em cada uma dessas etapas, pressupomos alunos aprendendo “alguma coisa” sob a denominação atual de componentes curriculares, historicamente e culturalmente definidos, tais como, entre os clássicos e os mais popularmente lembrados, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências (Biologia, Química, Física), Geografia, e História. Destarte, entendemos também que a instituição Escola tem objetivos únicos e específicos que a caracterizam, a legitimam e a justificam. Sendo assim, a presença de determinado componente curricular, em qualquer nível e fase de escolarização, não se justifica se caracterizado pela predominante proposição do ensino e aprendizagem de conteúdos e conhecimentos correspondentes, viabilizados e disponíveis em outros lugares que não a Escola. Será que a Educação Física, componente curricular obrigatório em todas essas etapas da Educação Escolar Básica, justifica-se no contexto da instituição Escola?

Para melhor entender, situar, e justificar a Educação Física na organização curricular da Educação Escolar Básica, sugiro a busca de precisão e de coerência na utilização de termos específicos. Inicialmente é essencial destacar a diferença “ignorada” entre Educação Física e Esporte, duas manifestações, instituições e práticas distintas. A frase “O que quer que seja Educação Física, Esporte é que não é”, enfaticamente escrita e dita, tem causado invariavelmente perplexidade a leitores e ouvintes orientados por uma compreensão baseada no senso comum. De um modo geral e também na comunidade escolar, incluindo alunos, pais, professores e dirigentes educacionais, essa diferença tem sido (1) ignorada no sentido do real desconhecimento da diferença e (2) também ignorada, de forma premeditada, no sentido de desprezo ou desinteresse em relação à problemática, procurando manter-se o “status quo” da confusão estabelecida para auferir-se vantagens da não diferenciação, pois a sustentação de uma proposta educacional/ pedagógica séria e coerente, na qual tal diferenciação não passa despercebida, implica mudanças conceitual e estrutural nem sempre convenientes para projetos oportunistas, improvisados e mercantilistas.

Entendo e adoto a distinção entre Educação Física e Esporte. A Educação Física é um componente curricular obrigatório da Educação Escolar Básica. O Esporte NÃO é um componente curricular obrigatório da Educação Escolar Básica, isto é, não existem aulas de Esporte. Existem sim aulas de Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, História, Geografia, Educação Física, e Arte (Educação Artística) entre outros.

Merece uma discussão mais rigorosa o entendimento de “qualidades humanas lúdicocompetitivas” relacionadas com os conceitos de “brincadeira”, “jogo”, e “esporte”. Tal discussão, entendo essencial para o questionamento da viabilidade de utilização, principalmente da brincadeira e do jogo, na condição ou de conteúdo ou de estratégia, no desenvolvimento de determinado componente curricular, incluindo a Educação Física.

Meu entendimento básico, referente à especificidade do componente curricular Educação Física, considera essencialmente sua pertinência ao estudo do movimento humano. A relação entre Educação Física e Movimento Humano, definindo o movimento humano como o objeto de estudo, ou principal, ou característico, ou específico, a ser explorado e desenvolvido nas aulas do componente curricular Educação Física, tem sido sustentada por vários autores e instituições. Assim, entendo a especificidade do componente curricular Educação Física, pertinente ao estudo do movimento humano.

Nesse contexto, é importante ressaltar que, motricidade, termo nominalmente específico e restrito, é simplesmente, embora não menos complexa, a propriedade celular que torna possível a atividade muscular e conseqüente ocorrência de determinado movimento. E é por meio da ocorrência de determinado movimento, executado de forma intencional e com objetivo e significados próprios e definidos, que o movimentar-se do ser humano, caracteriza e aperfeiçoa o seu existir nas suas diversas relações com os ambientes físico e social que se lhe apresentam ou são por ele propositalmente planejadas e desencadeadas.

Evidências demonstram a inadequação e a ambiguidade do termo Educação Física, cuja sustentação terminológica atual se dá principalmente em razão da tradição da nomenclatura, relevante e justificada à época de seu aparecimento, no século XVIII. Até que ponto a tradição deve sobrepor à fundamentação teórica e à argumentação lógica disponíveis na preferência terminológica? A dualidade “corpo e mente”, “físico e intelectual” nem mesmo pedagogicamente tem sido sugerida em razão da indissociabilidade característica do ser humano, razão pela qual passo a utilizar o termo Cinesiologia Humana em substituição à Educação Física. A especificidade e unicidade das aulas de Cinesiologia Humana são essencialmente relacionadas com conhecimento próprios da “Cinesiologia Humana”, área esta, a seguir, brevemente definida e caracterizada.

Respeitando a etimologia da palavra Cinesiologia e recuperando o seu verdadeiro significado, negligenciado pelo oportunismo de algumas classes profissionais, por cinesiologia humana é entendido o estudo dos movimentos realizados pelo ser humano. E, no domínio amplo desse estudo, são considerados e incluídos, em relação a esses movimentos, (1) as estruturas, os mecanismos e os processos, independentes e/ou interdependentes, que possibilitam e se relacionam com suas ocorrências, (2) os seus aspectos filogenéticos e (3) os seus aspectos ontogenéticos.

Assim, Cinesiologia Humana não é simplesmente a ciência e prática da atividade física. Nem tampouco denota somente o estudo da atividade física. Não é só a descrição ou anatomia de movimentos. Não é pura e simplesmente o estudo do movimento humano sob a perspectiva das ciências físicas. E nem trata unicamente da estrutura funcional do movimento humano.

Mais especificamente, trata de conhecimentos específicos sobre o movimentar-se do ser humano e sua aplicabilidade no sentido de permitir-lhe, individual e intencionalmente, (1) a utilização de potencialidades para movimentar-se, genérica ou especificamente, de forma habilidosa e, em correspondência, (2) a capacitação para, em relação ao meio em que vive, agir (interagir, adaptar-se, transformar ...), na busca de benefícios para a qualidade de vida.

Por conseguinte, a Cinesiologia Humana, em correspondência às especificidades científicas e tecnológicas, é caracterizada (1) pela organização e sistematização de conhecimentos próprios do movimentar-se do ser humano, relacionadas com abordagens e análises biológicas, químicas, físicas, psicológicas, antropológicas, e sociológicas, entre as principais, e em composição com áreas correlatas, citando entre as mais tradicionais, Fisiologia da Atividade Motória, Biomecânica, Desenvolvimento Motório, Controle Motório, e Aprendizagem Motória, e (2) pela produção própria e / ou encomenda de estudos e pesquisas relacionadas com questões pertinentes, mas não priorizadas por aquelas abordagens e análises, no sentido de contribuir para a sua especificidade.

Tenho reunido várias evidências que indicam a vulnerabilidade e fragilidade da argumentação pertinentes à caracterização e à justificativa da até então Educação Física como componente curricular, baseadas em objetivos e conteúdos tradicionais relacionados com modalidades esportivas e atividades de lazer, incluindo jogos, lutas, ginásticas e danças. Convictos da necessidade de mudanças, propositivamente temos considerado o seguinte objetivo para as aulas de Cinesiologia Humana na Educação Escolar Básica: viabilizar à aluna / ao aluno a aprendizagem de conhecimentos específicos sobre o movimento humano que lhe permita, individual e intencionalmente, (1) a utilização de potencialidades para movimentar-se, genérica ou especificamente, de forma habilidosa e, em correspondência, (2) a capacitação para, em relação ao meio em que vive, agir (interagir, adaptar-se, transformar ...), na busca de benefícios para a qualidade de vida.

Destaco a seguir, os conteúdos específicos para o desenvolvimento de aulas de Cinesiologia Humana. Considerando-se a relação entre conteúdos e conhecimentos e as características do processo de aprendizagem, as alunas / os alunos estudam as implicações inerentes às ações motórias realizadas tanto no lazer, quanto no trabalho e nas demais atividades do dia-a-dia, vivenciando os respectivos movimentos. Os conhecimentos acerca do movimento humano, para efeito de organização didática, são apresentados em quatro blocos de conteúdos: (1) estrutura e potencialidades relacionadas com o movimentar-se, envolvendo seus aspectos músculo-esquelético, fisiológico, biomecânico, neuro-muscular, psicológico, e suas interações; (2) capacidades relacionadas com o movimentar-se, caracterizadas por especificidades do sistema neurológico-muscular, como, por exemplo, força, velocidade, potência, resistência, equilíbrio, agilidade, tempo de reação, e destreza manual; (3) habilidades relacionadas com o movimentar-se, envolvendo a aprendizagem e execução de movimentos sem ou com implementos, sem ou com locomoção, e em ambiente estático ou dinâmico; e (4) relacionamento, por meio do movimentar-se, com o meio físico e social, envolvendo o estudo e vivências de situações onde o movimento humano afeta e é afetado pelo ambiente no qual está inserido, destacando-se a possibilidade e importância da ação motória nos processos de integração, interação, comunicação, expressão, controle, e transformação.

De certa forma, na execução e/ou estudo de um determinado movimento, pode-se considerar todos esses quatro blocos ao mesmo tempo. Porém, entendo também que, cada bloco pode ser enfatizado e desenvolvido isoladamente de acordo com as peculiaridades do planejamento escolar, incluindo interfaces com outros componentes curriculares.

Estes blocos de conteúdos abrangem várias dimensões do movimento do ser humano, dando margem para abordagens bastante amplas e dinâmicas nas aulas de Cinesiologia Humana. Relacionam-se com conhecimentos que vão muito além do simples movimentar-se, pois nosso intuito é também que as alunas / os alunos estudem, aprendam e compreendam o porquê do movimentar-se.

Assim, são caracterizados como conhecimentos próprios e específicos da Educação Escolar Básica. Espera-se, conseqüentemente, que sejam extrapolados para além das situações terminantes dos diversos níveis das atividades escolares. Dessa forma, entendo que estamos indo muito além da conceituação equivocada e da justificativa questionável dos conteúdos para as aulas de Educação Física apresentada nos parâmetros curriculares nacionais. Seus três eixos temáticos: (1) esporte, jogos, danças, lutas, ginástica; (2) conhecimento sobre o corpo e (3) atividades rítmicas e expressivas, limitam, ou mesmo não incluem o estudo do movimento humano e, além do mais, possibilitam a ambigüidade de sua especificidade em relação a outros componentes curriculares. Cumpre-me enfatizar que Cinesiologia Humana não é mais uma “abordagem da Educação Física”. A Cinesiologia Humana como componente curricular, de forma responsável e não excludente, reconhece a importância da fundamentação e conteúdo de “abordagens da Educação Física”, conforme relatadas na literatura pertinente, e as incluem no decorrer das fases do desenvolvimento curricular compatíveis com os níveis de suas possíveis aplicabilidades.

Tenho a convicção, acompanhada pelos resultados de prática profissional assim fundamentada, de que os conteúdos das aulas de Cinesiologia Humana, baseados no objetivo e nos quatro blocos de conteúdos aqui apresentados, pertinentes à aprendizagem relacionada com conhecimentos sobre o movimentar-se do ser humano, têm contribuído em muito para a consideração e valorização desse componente curricular no âmbito da Educação Escolar Básica.

Algumas notas complementares sobre o Esporte na Educação Escolar Básica:

1. Nas aulas de Cinesiologia Humana as alunas / os alunos não praticam Esporte. Nas aulas de Cinesiologia Humana as alunas / os alunos ESTUDAM, teórica e praticamente, o MOVIMENTAR-SE considerado como uma característica essencial do ser humano.

2. No entanto, entendo que o Esporte representa uma manifestação e uma instituição de inegável impacto junto à sociedade de um modo geral, razão pela qual acreditamos que a Escola não pode omitir-se em relação aos assuntos pertinentes ao Esporte. O movimentar-se é também uma característica essencial do ser humano, o atleta, envolvido na competição esportiva propriamente dita. Por isso, em algumas aulas do componente curricular Educação Física o movimentar-se do atleta, nas várias modalidades esportivas, é também, oportunamente, apresentado, discutido, analisado, estudado e vivenciado. Isto não significa que as alunas / os alunos estejam praticando Esporte.

3. Além disso, o tema Esporte, envolvendo necessariamente a participação do atleta e também, conseqüentemente, outros constitutivos como torcedores, rádio, jornal, televisão, internet, indústria e comércio de material esportivo, marketing esportivo, dirigentes esportivos, clubes esportivos, etc., pode ser desenvolvido em outros componentes curriculares como, por exemplo, Ciências (Biologia, Química, Física), História, Geografia, Arte, Ciências Sociais e Matemática, além de ser entendido como um tema transversal na mesma condição e categoria de outros temas transversais que abrangem Ética, Saúde, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual, e Trabalho e Consumo. Obviamente isso também não significa que, nessas situações, alunas / alunos estejam praticando Esporte.

4. Como as alunas / os alunos podem então praticar Esporte na Escola? Sem entrar no mérito da questão “O que é praticar Esporte?” cuja discussão fica para uma próxima oportunidade, as alunas / os alunos podem participar, opcionalmente, de atividades correlatas, consideradas extracurriculares, como por exemplo: = “Cursos de Aprendizagem Esportiva” em várias modalidades tais como Futebol de Salão, Futebol “Society”, Basquetebol, Voleibol e Handebol; = “Jogos Internos”, realizados anualmente, com a realização de competições inter-classes por meio de jogos com tipificação esportiva; e = “Equipes de Representação Esportiva” em competições entre Escolas, em várias modalidades tais como Futebol de Salão, Futebol “Society”, Basquetebol, Voleibol e Handebol

Referência Bibliográfica: 5º. Congresso Norte Paranaense de Educação Física Escolar 31 de maio a 03 de junho de 2011 Programação, Resumos e Trabalhos Completos Tema: Organização Curricular em Educação Física – Quais saberes? Quais práticas? ISBN No. 978-85-7846-092-1