Para onde vai a “Educação Física”?


Por ANTONIO DE PAULA BRITO / Professor de Educação Física

Qual o caminho e o futuro da “educação física”? Tem ela, mesmo, razão de existir? E, em caso afirmativo, qual a sua finalidade? Se interrogarmos uma amostra representativa da população, recebemos as respostas mais discordantes. Se interrogarmos os teóricos e responsáveis, obtemos igual resultado, ou talvez mais amplitude de discordância, por se tratar de pessoas que pensaram mais no problema e não se exprimem em termos de conceitos comuns ou estereótipos. Surgirão subdivisões ou diversificações em conceitos de “desporto”, “ginástica” e outros. Frequentemente, a “educação física” surge identificada com a “ginástica”, a qual representa, no senso comum, um sucedâneo da medicina, ou melhor, da farmacologia: - “faz bem”! Mas embora “fazendo bem”, a grande maioria da população vive bem sem ela, ou recebe os seus “benefícios” numa expressão quantitativa, sem significado no total da sua movimentação, o que prova que pode “fazer bem”, mas não é “necessária”. (E sem falar nas propostas da “elegância”, nem de “tirar barriga” ...). Sobre o desporto, as opiniões oscilam entre o “desembaraço”, a “evasão psicológica”, a “afirmação de si”, passando de novo pelo “fazer bem”, a “disciplina”, a “coragem”, etc. Em todas, parte-se aprioristicamente, da convicção de que se verificará uma transferência positiva. Inconfessadamente surge também a “agressão”, a “catarse”, a “sublimação”. Mas regressamos à interrogação inicial: - Qual o caminho da “educação física”? Poder-se-á ver um caminho para algo que não está sequer definido? Pode alegar-se que a “educação física” tem um “campo de acção” e uma (várias) metodologia e, até mesmo, investigação. Que tem inúmeros institutos superiores que diplomam, licenciam e doutoram. Que tem várias associações, federações, organizações internacionais. Que existe numa realidade mundial, visível, palpável. Mas pode, também, facilmente constatar-se que essas múltiplas realidades raramente estão de acordo com o seu pretendido campo de acção, a sua metodologia e os seus objectivos. E não precisaremos de mergulhar muito na história, para verificar que a dita “educação física” tem (final da página 10) (página 11) sido utilizada com múltiplas e opostas finalidades, do militarismo ao pacifismo, da agressão ao “entendimento entre os povos”, pelo nazismo e pelo comunismo, pela medicina, pelos empresários, pelos idealistas, pelos humanistas, pelos comerciantes, etc., etc. Creio, pois, e evitando especulações, que todos temos consciência de que existem tantos “campos” e “metodologias” inspiradas ou não por ideais ou conhecimentos científicos, que praticamente se torna impossível encontrar uma estrutura própria, definida. Não querendo fazer contestação por conta própria (embora pensando que esta corresponde a um novo e notável acesso de grande número de indivíduos a um novo nível de utilização da sua inteligência, numa palavra de lucidez), entendo que é necessário abandonar uma controvérsia estéril e olhar simplesmente para a frente. Para onde vai a “educação física” e, sobretudo, para onde vamos nós, “profissionais da educação física”, diplomados, e oficial e socialmente creditados como tal? Para responder a esta pergunta, parece-me que se torna uma separação de vias, não em “desporto “ e “ginástica”, mas quanto aos locais onde a nossa acção se vai desenvolver. Toda uma preparação e até um “processo mental” diferentes se impõem, segundo orientemos a nossa acção para o campo escolar ou clubístico, para uma afinidade com a medicina ou o espetáculo, etc., etc.

E como cerca de 80% do tempo de trabalho dos actuais “profissionais de educação física” se orienta para o campo escolar, e este é, ainda, o principal mercado de trabalho para aqueles, dou principal importância a este sector:

Primeiro ponto: - O que estamos a fazer na escola? Será insultoso dizer que NADA? Ou, pelo menos, que POUCO ou MUITO POUCO ou menos ALGO, mas SEM CONVICÇÕES? Julgo que, sobretudo, estamos a actuar sem convicções, ou apoiados em “verdades” em que já não acreditamos ou, talvez, nunca tenhamos acreditado, mas que eram cômodas e nos rendiam o ordenado e uma relativa tranqüilidade da consciência, ainda que quase imóvel ou alienada. Creio ainda que, na dúvida, buscamos “novas verdades” que se enquadrem num esquema cômodo e estável como o anterior. E então, trata-se de transferir LING para LE BOULCH, ou outro, o que, sendo já uma evolução, não resolve em nada um problema que é, essencialmente estrutural. Continua-se a pensar em MANIPULAR MOVIMENTOS À HORA. E o melhor manipulador será o mais bem pago e prestigioso. Tenhamos coragem de abandonar definitivamente este campo, sob pena de morte prematura por inutilidade e falta de significado.

- Enterremos definitivamente a “ginástica”, e remetamo-la à sua simples (e duvidosa) função correctiva, de desporto competitivo, ou de puro espetáculo semibalético. Mas não nos ocupemos em tentar a sua sobrevivência por sucessivas mistificações. E, sobretudo, não tentemos impô-la a nós próprios, para nos justificarmos.

- Definamos bem o “desporto”, o que é e para que serve; se é comercialismo através do espetáculo ou da venda de materiais, que o seja mesmo, de forma clara e declarada. Não é desonesto ser empregado do comércio ou agente artístico.

- Se é forma de “entreter crianças”, que o seja. Não é vergonha, nem difícil, ser zelador de um parque juvenil.

- Se é forma de sublimação de instintos mais ou menos “anti-sociais”, tenhamos a coragem de analisar e estudar, a fundo, o problema e tomar uma posição.

- Se é forma de obter indivíduos fisicamente “desembaraçados”, aptos numa vaga generalidade, estudemos cientificamente a não confirmada hipótese da aquisição e transferência das qualidades pretendidas (e a definir mais claramente).

- Se é forma de “fazer bem”, ingressemos em cursos de farmácia, enfermagem, ou, sendo mais ambiciosos, em medicina, que tem largo campo de aplicação e boa definição metodológica.

- Se é forma de preparar soldados, ingressemos nas respectivas escolas militares, ou organizações paramilitares.

- Se queremos fazer “educação social”, ingressemos em escolas onde possamos saber o que isso é, ou pode ser, e onde nos possamos especializar.

- Se é forma de ganhar a vida, então, ergamos um pouco a cabeça e vejamos que estamos longe dos melhores campos e perspectivas, a não ser que a nossa mediocridade nos impulsione, decisiva e vocacionalmente, para a “educação física” tal como é e está.

Tenhamos a coragem de SER qualquer dessas coisas, mas SER MESMO com clareza, profissionalismo e sem subterfúgios.

Porque, neste momento, como estamos, NÃO SOMOS NADA. Não nos entendemos (o que frequentemente é positivo, pelo menos como ponto de partida), não sabemos onde estamos, nem para onde vamos.

- Quanto aos múltiplos “meios afins”, a sua situação na “educação física” não será mero artifício terminológico? Eles até nasceram por si e vivem e evoluem à margem... (final da página 11)

(página 12)

Mas, esquecia-me: - Se quisermos ser educadores?

Em primeiro lugar, não chamemos educação ao que se referiu atrás.

Então comecemos por estudar, claramente, as suas crises e tendências actuais; as suas teorias, as suas “eficiências” e a validade das mesmas; o Homem na sua imensa interrogação e na sua contraditória realidade.

Estudemos tão seriamente as ciências humanas como a realidade social e a sua evolução. Olhemos tão fundamente o misticismo como a política. Tomemos consciência. Digamos , ESTOU VIVO e QUERO SABER. Tomemos o verdadeiro caminho, o da CULTURA, uma CULTURA VIVIDA, séria, elaborada, adquirida, experimentada e meditada em cada momento. Tenhamos a certeza de que não há certezas, de que é preciso lutar, estar presente, pensar, estudar e regressar, regressar sempre a uma interrogação profundamente sincera. Uma interrogação que nos poderá conduzir ao maravilhoso caminho, paradoxalmente firme e incerto, dos HOMENS VIVOS.

Lutemos diária e duramente, implacavelmente, pela actualização dos conhecimentos, pela compreensão da vida em que devemos participar e não apenas ser envolvidos.

Desistamos, enquanto é tempo, de ser “manipuladores de movimentos” no meio de uma acção (a educativa) que não comporta manipulações.

Façamos rapidamente a nossa “reciclagem” antes que seja demasiado tarde e tenhamos que ser misericordiosamente reabsorvidos noutros sectores.

Mas uma “reciclagem” TOTAL, sem contemplações para com o cômodo e talvez relativamente rendoso imobilismo.

Mas, se tantas das “nossas” técnicas e habituais campos de acção são aqui negados, o que se pode apontar para um primeiro balizar da nossa acção?

Primeiro, a incerteza. A incerteza rica e criadora. Depois, o campo vasto, potencialmente inesgotável da evolução do Homem e dos seus conhecimentos. Mas o que fazemos na Escola? Primeiro, estaremos presentes. Presentes e disponíveis, condição sem a qual não poderemos nem devemos ESTAR. Presentes e disponíveis, como não podem estar a maior parte dos pais e uma grande maioria dos educadores. Os pais não são forçosamente especialistas em educação, mas apenas, pais, com os mais variados níveis de cultura, as diferentes funções, ocupações e especializações da sociedade profissionalmente escalonada. A sua visão da criança é limitada à sua criança, ao âmbito familiar, e deformada pela força afectiva, o que a desintegra de uma visão social do problema.

Os educadores, muitos deles, não são mais do que instrutores, isto é, transmissores ou exemplificadores de técnicas, nelas apenas especializados , quantas vezes mal. Dedicam apenas o tempo-aula ao aluno, ou melhor, à exposição ou ensino do que planearam ou está nos programas oficiais.

Estar presente e disponível será a primeira e essencial condição. A segunda será ter o citado conhecimento, actual e vivo, dos problemas educativos, o que implica uma séria bagagem psico-pedagógica, ou melhor, psico-socio-pedagógica.

A terceira, e mais difícil, será a evolução na posse integral das duas condições primeiras, enriquecidas pela citada cultura participante, vivida na realidade escolar, e entendida a escola, sempre, como um elemento da estrutura social e não de um “ghetto” ou um “oásis”.

Satisfeitas essas condições, poderemos iniciar a nossa acção (admitindo que a escola continuará directiva), com base nalgumas das muitas técnicas (preferiria pulverizá-las e chamar-lhes apetrechamento técnico, em peças simples, manipuláveis) que a dita “educação física” nos oferece. Com estes elementos, partiremos para a nossa experiência com os alunos e a escola, sem esquemas ou planos formais. Em breve poderemos verificar quão restrita, como inútil, será a nossa função se aos citados elementos não juntarmos outras formas, TODAS as formas que sejam oportunas e adequadas para uma actividade infantil e juvenil verdadeira e adequadamente activa. E aqui pisaremos o que julgo poder ser, actualmente, o nosso verdadeiro terreno de acção: - o jovem em actividade, que lhe é absolutamente essencial, numa escola estruturalmente estática. Actividade essa que pode ser gimnodesportiva, recreativa, teatral, de excurcionismo, de múltiplos clubes escolares, etc., etc.

Para esta acção, o actual “profissional de educação física” beneficia da pouca importância que lhe tem sido atribuída e à sua “matéria”, sem exames, sem programas fixos, sem classificações, etc. Por uma ironia sócio-pedagógica, a dita “educação física” surge subitamente, na posição mais actual e desalienada, mais fora dos ataques fundamentais da “contestação escolar” e em melhor posição para evoluir com um mínimo de peias oficiais (a não ser que, também por inconsciente e mazoquista ironia, comece agora a reclamar para si os “direitos” de que os outros se querem ver desembaraçados: um problema de frustração, e de imaturidade...)

Para melhorar a citada boa posição, bastaria transferir as aulas formais para actividades a planificar colectivamente (professor-aluno), segundo as possibilidades e interesses e respectiva (final da página 12) (página 13) evolução. Actividades em que se poderia encontrar e realizar a verdadeira dimensão pedagógica do profissional de educação (chamemlhe física ou outro nome, o que for mais cômodo) num esquema livre, não-directivo, pleno de possibilidades de realização para um verdadeiro especialista de infância e juventude, um verdadeiro promotor de educação e cultura.

Depois, depois é tudo aquilo que se disse a partir do momento em que se levantou o problema educativo: estudo e actualização constantes, cultura vivida, adquirida pelo estudo, experiência e meditação... um pequeno mundo impossível de descrever pela sua extensão e complexidade, mas acessível, aberto aos que nele queiram sinceramente penetrar. Um mundo vivo, apaixonante, inesgotável, cuja evolução é imparável e irreversível.

Um mundo que não nos podemos nem devemos perder, se nos quisermos sentir vivos. Vivos, conscientes e participantes.

Resumindo, parece-me urgente, urgentíssimo, OPTAR. Os campos e os métodos existem. Sejamos esta ou aquela coisa, mas SEJAMOS, nitidamente, claramente, honestamente. A nossa seriedade e sobrevivência profissional está em jogo, agora mais do que nunca, quando muitos julgam ter-se atingido uma meta.

A concluir, tenho a perfeita consciência da realização de uma simples proposta, uma opinião, ainda que em situação de uma relativa vivência e experiência, mas, essencialmente, opinião para discutir, comprovar, negar, contestar, experimentar, evoluir... Publicado em:

EDUCAÇÃO FÍSICA. DESPORTOS. SAÚDE ESCOLAR

Ministério da Educação Nacional, Lisboa, Portugal

Direção-Geral da Educação Física, Desportos e Saúde Escolar

No. 18, Abril, Ano 1969, Páginas 10-13.