Perspectivas para a Educação Física Brasileira:


Cinesiologia Humana (Educação Física) na Educação Escolar Básica

José Guilmar Mariz de Oliveira
Coordenador Geral do Instituto de Cinesiologia Humana de São Paulo (ICHSP)

Quando nos referimos à instituição Escola em geral, quaisquer que sejam as suas fases na Educação Infantil, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, pressupomos professoras / professores ensinando e alunas / alunos aprendendo “alguma coisa” sob a denominação atual de componentes curriculares tais como, entre os clássicos e os mais popularmente lembrados, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências (Biologia, Química, Física), Geografia, e História. Destarte, entendemos também que a instituição Escola tem objetivos únicos e específicos que a caracterizam, a legitimam e a justificam.

Quase que invariável e inevitavelmente, relacionamos a instituição Escola com o conceito de Educação que, como dever estatal, deve assegurar à aluna / ao aluno conhecimentos necessários para, em tempo real e ao longo da vida, desenvolver-se individual e socialmente, cumprir suas obrigações e exigir a observância de seus direitos no exercício da cidadania e demonstrar competência em situações de trabalho e de continuidade de estudos em níveis escolares posteriores. Assim, ao considerarmos o sentido mais estrito do conceito de Educação Escolar Básica, esperamos ser característico, essencial e um comum cultural, o ensino de coisas específicas que crianças e jovens aprendem na Escola.

Dessa forma, entendemos que a presença de determinado componente curricular, em qualquer que seja o nível de escolarização, não se justifica se caracterizado pela predominante proposição do ensino de conteúdos e conhecimentos correspondentes, viabilizados e disponíveis em outros lugares que não a Escola. Sendo assim e particularmente, será que a atual Educação Física, componente curricular em todos os níveis da Educação Escolar Básica, justifica se no contexto da instituição Escola?

Para um melhor entendimento e resposta relacionados com essa questão, inicialmente é essencial destacar a diferença “ignorada” entre Educação Física e Esporte, duas manifestações, instituições e práticas distintas. A frase “O que quer que seja Educação Física, Esporte é que não é”, enfaticamente escrita e dita, tem causado invariavelmente perplexidade a leitores e ouvintes orientados por uma compreensão baseada no senso comum. De um modo geral e também na comunidade escolar, incluindo alunos, pais, professores e dirigentes educacionais, essa diferença tem sido (1) ignorada no sentido do real desconhecimento da diferença e (2) também ignorada, de forma premeditada, no sentido de desprezo ou desinteresse em relação à problemática, procurando manter-se o “status quo” da confusão estabelecida para auferir-se vantagens da não diferenciação, pois a sustentação de uma proposta educacional / pedagógica séria e coerente, na qual tal diferenciação não passa despercebida, implica mudanças conceitual e estrutural nem sempre convenientes para projetos oportunistas, improvisados e mercantilistas.

Entendemos e adotamos a distinção entre Educação Física e Esporte. A Educação Física é um componente curricular obrigatório da Educação Escolar Básica. O Esporte NÃO é um componente curricular obrigatório da Educação Escolar Básica, isto é, não existem aulas de Esporte. Existem sim aulas de Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, História, Geografia, Educação Física, e Arte (Educação Artística) entre outros. Nas aulas de Educação Física as alunas / os alunos não praticam Esporte. Nas aulas de Educação Física as alunas / os alunos ESTUDAM, teórica e praticamente, o MOVIMENTAR-SE considerado como uma característica essencial do ser humano.

Entendemos também que o Esporte representa uma manifestação e uma instituição de inegável impacto junto à sociedade de um modo geral, razão pela qual acreditamos que a Escola não pode omitir-se em relação aos assuntos pertinentes ao Esporte. O movimentar-se é também uma característica essencial do ser humano, o atleta, envolvido na competição esportiva propriamente dita. Por isso, em algumas aulas do componente curricular Educação Física o movimentar se do atleta, nas várias modalidades esportivas, é também, oportunamente, apresentado, discutido, analisado, estudado e vivenciado. Isto não significa que as alunas / os alunos estejam praticando Esporte.

Além disso, o tema Esporte, envolvendo necessariamente a participação do atleta e também, conseqüentemente, outros constitutivos como torcedores, rádio, jornal, televisão, internet, indústria e comércio de material esportivo, marketing esportivo, dirigentes esportivos, clubes esportivos, etc., pode ser desenvolvido em outros componentes curriculares como, por exemplo, Ciências (Biologia, Química, Física), História, Geografia, Arte, Ciências Sociais e Matemática, além de ser entendido como um tema transversal na mesma condição e categoria de outros temas transversais que abrangem Ética, Saúde, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual. Obviamente isso também não significa que, nessas situações, alunas / alunos estejam praticando Esporte.

Como as alunas / os alunos podem então praticar Esporte na Escola? Sem entrar no mérito da questão “O que é praticar Esporte?” cuja discussão fica para uma próxima oportunidade, as alunas / os alunos podem participar, opcionalmente, de atividades correlatas, consideradas extracurriculares, como por exemplo:

= “Cursos de Aprendizagem Esportiva” em várias modalidades tais como Futebol de Salão, Futebol “Society”, Basquetebol, Voleibol e Handebol;

= “Jogos Internos”, realizados anualmente, com a realização de competições inter-classes por meio de jogos com tipificação esportiva; e

= “Equipes de Representação Esportiva” em competições entre Escolas, em várias modalidades tais como Futebol de Salão, Futebol “Society”, Basquetebol, Voleibol e Handebol.

Uma vez não mais ignorada a diferença entre Educação Física e Esporte, vamos discorrer então sobre o objetivo do componente curricular Educação Física e os conteúdos desenvolvidos nas aulas correspondentes.

Temos reunido várias evidências que indicam a vulnerabilidade e fragilidade da argumentação pertinentes à caracterização e à justificativa da Educação Física como componente curricular, baseadas em objetivos e conteúdos tradicionais relacionados com modalidades esportivas e atividades de lazer, incluindo jogos, lutas, ginásticas e danças. Convictos da necessidade de mudanças, propositivamente temos considerado o seguinte objetivo para as aulas de Educação Física na Educação Escolar Básica:

Viabilizar à aluna / ao aluno a aprendizagem de conhecimentos específicos sobre o movimento humano que lhe permita, individual e intencionalmente, (1) a utilização de potencialidades para movimentar-se, genérica ou especificamente, de forma habilidosa e, em correspondência, (2) a capacitação para, em relação ao meio em que vive, agir (interagir, adaptar-se, transformar ...), na busca de benefícios para a qualidade de vida.

Em razão do objetivo assim definido e da ambigüidade e inadequação do termo Educação Física, estamos utilizando o termo Cinesiologia Humana para melhor definir e caracterizar esse componente curricular.

Respeitando a etimologia da palavra Cinesiologia e recuperando o seu verdadeiro significado, negligenciado pelo oportunismo de algumas classes profissionais, por cinesiologia humana entendemos o estudo dos movimentos realizados pelo ser humano, considerando-se (1) as estruturas, os mecanismos e os processos, independentes e/ou interdependentes, que possibilitam e se relacionam com suas ocorrências, (2) os seus aspectos filogenéticos e (3) os seus aspectos ontogenéticos.

Assim, a cinesiologia humana, em correspondência às especificidades científicas e tecnológicas, é caracterizada pela organização e sistematização de conhecimentos pertinentes ao movimentar-se do ser humano, relacionadas com abordagens e análises biológicas, químicas, físicas, psicológicas, antropológicas, e sociológicas, entre as principais, e em composição com áreas correlatas, citando as mais tradicionais: Fisiologia da Atividade Motória, Biomecânica, Desenvolvimento Motório, Controle Motório, e Aprendizagem Motória.

Convém aqui destacar a relação entre cinesiologia humana e motricidade humana, no sentido de desfazer uma confusão estabelecida nos meios acadêmicos da Educação Física, em razão de uma invenção oportunista importada da Europa, adotada entre nós sem a devida e criteriosa análise de sua pertinência. Por “motricidade humana” passou-se a abranger, de forma imprópria e artificial, aquilo que lingüisticamente e nominalmente define-se por “cinesiologia humana”, incluindo, além de estudos biológicos, citológicos e químicos, estudos físicos, filosóficos, antropológicos, psicológicos, e sociológicos, entre outros.

Assim, entendemos que motricidade, termo nominalmente específico e restrito, é simplesmente, embora não menos complexa, a propriedade celular que torna possível a atividade muscular e conseqüente ocorrência de determinado movimento. Conseqüentemente, a dimensão da motricidade humana é limitada especificamente, a uma parte, se bem que essencial, do conjunto representado pela Cinesiologia Humana.

Destacaremos a seguir, os conteúdos específicos para o desenvolvimento de aulas de Cinesiologia Humana (Educação Física).

Considerando-se a relação entre conteúdos e conhecimentos e as características do processo de aprendizagem, as alunas / os alunos estudam as implicações inerentes às ações motórias realizadas tanto no lazer, quanto no trabalho e nas demais atividades do dia-a-dia, vivenciando os respectivos movimentos. Os conhecimentos acerca do movimento humano, para efeito de organização didática, são apresentados em quatro blocos de conteúdos:

(1) estrutura e potencialidades relacionadas com o movimentar-se, envolvendo seus aspectos músculo-esquelético, fisiológico, biomecânico, neuro muscular, psicológico, e suas interações;
(2) capacidades relacionadas com o movimentar-se, caracterizadas por especificidades do sistema neurológico-muscular, como, por exemplo, força, velocidade, potência, resistência, equilíbrio, agilidade, tempo de reação, e destreza manual;
(3) habilidades relacionadas com o movimentar-se, envolvendo a aprendizagem e execução de movimentos sem ou com implementos, sem ou com locomoção, e em ambiente estático ou dinâmico; e
(4) relacionamento, por meio do movimentar-se, com o meio físico e social, envolvendo o estudo e vivências de situações onde o movimento humano afeta e é afetado pelo ambiente no qual está inserido, destacando-se a possibilidade e importância da ação motória nos processos de integração, interação, comunicação, expressão, controle, e transformação.
De certa forma, na execução e/ou análise de um determinado movimento, podemos considerar todos esses quatro blocos ao mesmo tempo. Porém, entendemos também que, cada bloco pode ser enfatizado e desenvolvido isoladamente de acordo com as peculiaridades do planejamento escolar, incluindo interfaces com outros componentes curriculares.
Estes blocos de conteúdos abrangem várias dimensões do movimento do ser humano, dando margem para abordagens bastante amplas e dinâmicas nas aulas de Cinesiologia Humana (Educação Física). Relacionam-se com conhecimentos que vão muito além do simples movimentar-se, pois nosso intuito é também que as alunas / os alunos estudem, aprendam e compreendam o porquê do movimentar-se.
Assim, são caracterizados como conhecimentos próprios e específicos da educação escolar básica. Espera-se, conseqüentemente, que sejam extrapolados para além das situações terminantes dos diversos níveis das atividades escolares.

Dessa forma, entendemos que estamos indo muito além da conceituação equivocada e da justificativa questionável dos conteúdos para as aulas de Educação Física apresentada nos parâmetros curriculares nacionais. Seus três eixos temáticos: (1) esporte, jogos, danças, lutas, ginástica; (2) conhecimento sobre o corpo e (3) atividades rítmicas e expressivas, limitam, ou mesmo não incluem o estudo do movimento humano e, além do mais, possibilitam a ambigüidade de sua especificidade em relação a outros componentes curriculares. Por meio daquelas atividades, enfatiza-se prioritariamente a prática de determinados movimentos, próprios de atividades específicas, valendo-se da apropriação inadequada, indevida, e irresponsável dos conceitos de cultura corporal e corporeidade, e não consideram as características, especificidades, e objetivos da educação escolar básica.

Temos a convicção, acompanhada pelos resultados de nossa prática profissional, de que os conteúdos das aulas de Cinesiologia Humana (Educação Física), baseados nos quatro blocos de conteúdos aqui apresentados, pertinentes à aprendizagem relacionada com conhecimentos sobre o movimentar-se do ser humano, têm contribuído em muito para a consideração e valorização desse componente curricular no âmbito da educação escolar básica.

Texto (palestra) publicado em:

Seminário “As Conquistas da Educação Física”, Assembléia Legislativa de São Paulo, agosto de 2008, páginas 11-18